Microbiota intestinal como alvo terapêutico para o tratamento de autismo



Transtorno do espectro autista (TEA) é uma síndrome decorrente de distúrbios no desenvolvimento neurológico, que geralmente ocorrem durante o primeiro trimestre de gestação. Embora essa síndrome apresente diferentes espectros, é caracterizada primordialmente por déficits no aprendizado, na comunicação e socialização, bem como pelo desenvolvimento de comportamentos estereotipados.

Atualmente, estima-se que um em cada 300 indivíduos ao redor do mundo apresentam algum espectro da doença, destacando a importância do desenvolvimento de terapias efetivas e acessíveis, que possam melhorar a qualidade de vida dessa grande parcela da população. Entretanto, embora fatores ambientais e genéticos sejam capazes de influenciar os sintomas, as causas específicas que levam ao desenvolvimento do TEA são desconhecidas e, provavelmente, multifatoriais, limitando o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas.


De modo interessante, sintomas gastrointestinais, incluindo constipação e dores abdominais, bem como alterações na composição da microbiota intestinal (disbiose), apresentam-se como uma das principais comorbidades em indivíduos com TEA. Baseando-se nessas observações, estudos passaram a investigar um possível papel da microbiota intestinal no desenvolvimento e sintomatologia dessa desordem. De fato, trabalhos utilizando modelos animais demonstram que, tanto quadros de disbiose materna durante a gestação, quanto nos indivíduos acometidos em períodos pós-natal, participam da etiologia do TEA.


O uso de ferramentas para modular a composição da microbiota intestinal, incluindo o tratamento com antibióticos de amplo espectro ou com probióticos específicos (Lactobacillus reuteri e Bacteroides fragilis), é capaz de reverter os déficits de aprendizado, socialização e a melhorar o trânsito e permeabilidade intestinais. Corroborando esses dados, testes clínicos utilizando transplante de microbiota fecal (TMF) de indivíduos neurotípicos para crianças com TEA demonstram que o tratamento, de fato, corrige a disbiose observada nesses indivíduos e reverte grande parte dos sintomas apresentados por um período prolongado, apontando a modulação da microbiota como um promissor alvo terapêutico para o tratamento de TEA.






Dra. Marcela Davoli Ferreira

Snyder Inst. of Chronic Diseases

University of Calgary, CA





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