Entrevista: Avanços, desafios e cenário político-econômico na Pesquisa Brasileira


Como definir os avanços tecnológicos no contexto da pós-graduação no Brasil?

A área de ciências biomédicas é a que mais avançou no mundo nas últimas décadas, equiparando-se com a física e astronomia.



Hoje, existem muitas pesquisas relacionadas, por exemplo, as vacinas, um produto biotecnológico oriundo das observações de Edward Jenner no século XVIII. Contudo, após vários séculos, o que fazemos é repetir o que Jenner fez. Isso é de certa forma preocupante quando pensamos em eficiência, pois essa estratégia protege somente contra alguns tipos de agentes. O que está mudando hoje? A estratégia vacinal está sendo alterada, ainda no contexto de pesquisa científica, mas em pouco tempo será revertido para a população. Outras estratégias estão surgindo, principalmente relacionadas à edição genômica. São vacinas, terapias antitumorais que visam uma intervenção mais ativa, dentre outras. Ainda existem questões éticas a serem discutidas, mas estamos caminhando rapidamente para isso.

O Programa de Pós-Graduação em Imunologia e Parasitologia Aplicadas (PPIPA) está inserido dentro de uma área de interesse para o biomédico, uma vez que sua área de concentração compreende imunologia, parasitologia e microbiologia, especialidasdes bastante almejadas. Há ainda pesquisas no PPIPA no âmbito da biologia celular, genética, ciências fisiológicas, farmacêuticas, entre outras. Os Programas de Pós-graduação foram avaliados este ano pela CAPES, sendo ranqueados com conceitos que variam entre dois e sete. A nossa área, que é uma daquelas com maior competitividade dentro da CAPES, é constituída por 35 cursos, sendo 12 conceituados com notas seis e sete. Eu coordeno o PPIPA, que completou 25 anos e recebeu o conceito 6 pela segunda avaliação consecutiva.

Em qual o cenário que o Brasil se encontra na pesquisa cientifica?

No Brasil, a pesquisa biotecnológica de ponta possui uma defasagem temporal em relação aos países desenvolvidos. Nunca conseguimos ser competitivos de fato, mas diminuímos muito a distância em relação aos países desenvolvidos, que são referências mundiais. Esta diferença, entretanto, voltou a aumentar de forma galopante nos últimos dois anos por conta do cenário político-econômico atual.

Quais fatores que inviabilizam as pesquisas nacionais?

Falta certo conhecimento de base, mas temos ferramentas para adquiri-lo, diminuindo facilmente o intervalo de defasagem. Os principais problemas enfrentados são questões burocráticas que geram atrasos. Os altos valores dos insumos e a redução no financiamento também são fatores que contribuem para as dificuldades que encontramos. Estes entraves reduzem o volume e impacto de nossas pesquisas, publicações e atrasam a construção do conhecimento.

Visando os próximos 10 anos, qual o prospecto para a pesquisa científica no país?

Hoje o número de editais e oportunidade de financiamento reduziu drasticamente, financiando apenas grandes grupos de pesquisas ou grupos bem consolidados. Continuando assim, teremos um cenário onde a cada 100 grupos de pesquisas, apenas quatro ou cinco irão receber financiamento, induzindo os demais a reduzirem ou mesmo pararem seus trabalhos. Isto leva a queda da diversidade de opinião e conhecimento de nossos grupos.

Qual o conselho para os futuros pesquisadores?

Independente do seu entorno, projete o que você quer da vida daqui a dez anos. Trace metas para chegar ao seu objetivo e não desista. Para pesquisa e docência no Brasil você irá precisar de possuir o título de doutor, então escolha uma área com a qual possua afinidade e que te propicie disseminar novos conhecimentos. E, por fim, especialmente para os biomédicos, aproveitem o leque de saberes que o curso oferece e a formação que vocês adquirem. E se envolvam com a pesquisa científica e geração de conhecimentos, não somente com a execução de protocolos. Alcem vôos altos!


Prof. Dr. Tiago Wilson Patriarca Mineo, Coordenador do PPIPA ICBIM - UFU

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